Havia no céu, um anjo tecelão, que fiava e tecia a felicidade das pessoas, do sorriso de cada uma delas ele criava fibras, com a ajuda do bicho da seda, na roca, criava destinos. Durante milénios esse fora o seu destino, seus dedos estavam calejados, as cores feriam-lhe a vista.
Agora ele queria sentir, o que sentiam todos os que ele tecia a felicidade, ele queria sentir frio, calor, queria passar horas a vislumbrar o mar, queria sem pressa curtir a liberdade das aves perdidas na imensidão do azul, vendo o mover da vida de todas as pessoas.
Em um dado momento sentiu a paz no olhar de uma garota que amava flores, uma garota de uma espaçonave de orvalhos em cio.
Queria dar-lhe todos os sorrisos, sorrisos de muitas texturas e muitas cores e, lembrou-se de ter quebrado a roca, quando a agulha do desejo espetou-lhe o dedo... Magoou-se, lagrimejou milhões de cristais coloridos que caiam escondendo-se nas sombras do cosmos.
Na urgencia tentou recuperá-los, mas um deles provocou-lhe profundo corte, sangrou quente e palidamente e, ali ficou a esperar que tudo cessasse. Foi então que reparou que onde o sangue caia desenhava o rosto daquela garota...
Ele sorriu, sorria de verdade pela primeira vez, não mais timidamente, não mais sentindo-se profano, sorriu um sorriso de vida.
E a vida passou a fazer morada nele, uma vida humana, fiada pelo olhar de uma mortal.
Janaina Cruz










