domingo, 19 de abril de 2015

A nave da noite



Dissipa-se a poeira do tempo,
Restando-nos a dura realidade,
Buracos negros nas horas,
Sumidouros de tempos incomuns.
Quero os teus dentes rasgando todos os silêncios,
Estraçalhando, partindo todo o abandono
E as dores que assombram os retratos e as realidades.
Somos banais, comuns, meu hálito tem o cheiro de guerra
E sangue, sangue ácido, meu beijo é quente de mais para ti.
Teimo em tocar sua ausência, tento torcer-lhe o corpo,
Machucar o teu sexo...
Descanso em teu vértice inexistente,
Cismo que não há você, 
Porque depois estou abraçada a miragem da lua, nua e cruel...
Pálido vigor!
O embaraço da luz atrapalha os meus planos,
Há escuridões enrijecidas sobre nós e sobre toda a cidade,
Inquietudes e tédios pelos shoppings e pelas telenovelas.
Um cego decifra a charada por mim
Dedos espalhados tateando realidades e sumidouros,
Coisas que eu não sei, coisas que eu não quero mais saber.
Detesto surpresas e tu não me surpreendes mais.
Aprendo a ler as rosas pelas cores, pelas dores de cada vegetal.
Sobre a mesa só migalhas e é preciso dormir cedo,
É preciso saber caminhar para a morte,
Toda essa transitoriedade, enquanto a nave da noite já começa a partir.


Janaina Cruz

sábado, 24 de janeiro de 2015

Frio




O frio começou dentro do seu coração


Enterrou o choro e a calma

Chorou convulsivamente 

Era difícil acompanhar tantas mudanças

O tédio ponteiava o caminho
Adeus fantasias
Adeus
Adeus...
Ouviu os cantos gregorianos até o fim da mandrugada
Fachadas de hoties
Despertavam sua curiosidade...
Agora é que tudo começava
A semente da liberdade a desafiar
Os exatos, os complexos, replantando
A chuva que caia dentro do coração
E por lá, tudo estava frio...
Frio, muito frio...

Janaina Cruz

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Eterno



Desde quando foi eterno,
Esse jeito doce
Esse teu gosto ávido
Esse calor de sol que mora em ti
Inquietações e manifestos...
Atemporal é o sentir,
Por ti escreveria todas as cartas de amor,
Escreveria em minha pele o teu nome,
Teu nome em fogo e sangue,
Para que fiques em mim eternamente.
Tua voz combina com meu ouvido,
Quando ouço a tua voz, tenho a impressão
De que ouço os melhores sons da natureza
Brincando com magias secretas dentro de mim.
Aprenderia teus lábios se possível fosse,
Só para emprestar-te a sensação que em mim provocas,
Dobraria nas mãos mil dias de sois,
Sois apenas teus e meus...
Em meio a deliciosas vertigens,
Onde as paredes giram em frases,
Como caleidoscópios coloridos,
Nossos corpos conjugados,
As conchas cheias de mar...
Olhe a maré meu amor,
Olha nosso barco no mar,
A vela numa valsa invisível com o vento...
Inclinam-se as horas sob nossas passagens,
Vento amigo, vento antigo,
A vida que nos faz sorrir
Com esse gosto de eterno,
Esse jeito doce e ávido
Teu e meu

Janaina Cruz

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Silhueta



Arestas vermelhas
Em meio ao sol girando
Em teus cabelos.
A poesia a alimentar-lhe
A alma, esposa lírica da beleza.
O mar estende-se a teus pés,
Para saldar a poesia
Que ninas em tuas mãos,
Na guarda sublime de teus cuidados.
Se tu, tocas docemente a poesia,
Com tuas digitais de deusa,
Há de brilhar um sol em cada retina.
Abres a poesia como pétalas,
Como o vento a juntar

Palavras perdidas.

Janaina cruz

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A moça do sonho


O cheiro do esmalte espalhou-se pelo dia nublado.
Apertou três parafusos antes de sair,
Pressentiu com fragilidade
O inefável.
Era cria da lua,
Tez pálida quase transparente
Onde via-se cruzar veios azuis de superfície.
Olhar displicente,
Quase sempre distante...
Naquele corpo tudo era hipnótico e sedutor.
Nas solidões inventadas,
Invertidas
Corria atrás de um tempo
Atemporal...
Tocava o vestido, achando-o justo de mais,
Acendia os lábios com mais cor.
Tão intensa!
Tão intacta!
O mundo existe por causa dela!


Janaina Cruz

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Bendito



Naquele lugar estava amalgamada sua alma.
O chão rachado sem nenhuma flor,
Só espinhos agudos embalando a rudeza
De um verão infindável.
Os pássaros partiram
Mas ele estava lá,
Cutias e preás,
Mas ele continuava por lá,
Os anjos sumiram,
E ele sempre lá,
Preso aquele chão sem folhas,
Sem vida, avizinhado ao sol que quase nunca se põem.
E põe a vela entre os santos
E põem o rosário entre as mãos
E põem a vida a espera de algo novo...
Algum vento surdo que mova os lençóis que torram nos varais,
Que lhe traga os gritos de crianças brincando ao longe,
E aquele perfume que nunca mais lhe saiu da cabeça.

Janaina Cruz
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